sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"XUNADOS" , TáDinHUzzZ

ESSE POST É EM HOMENAGEIM AO "ILUSTRE ARTISTA RENOMADO, CULTO, LEMBRANDO DA HOMENAGEM FEITA PELA REVISTA EPOCA E PELO REAL MADRID"

E eu que pensava que era só o Brasil que estáva em avançado estado de decomposição.É inegável: educação, moral, ética, política, infra-estrutura. Mas e na cultura, especificamente na música popular, como estamos? Nos últimos anos passamos do brega às duplas sertanejas, da avalanche do pagode e do axé até o arrastão do funk carioca e do batidão do sertanejo universitário.
Não que cada um desses estilos sejam "maus" por si só. O que acho deplorável é a absoluta ausência de senso crítico na grande massa de ouvintes. Vejamos. Que mal há em ser brega? Não ser moderno? Amadurecer, parafraseando Belchior, é entender e aceitar "que o novo sempre vem".

PELO MENOS O REFRÃO SERVIU PRA ALGUMA COISA

"AI SE EU TE PEGO"





O Brasil, país de vasto e riquíssimo cancioneiro popular (serestas e toadas, sambas-canção e boleros, da fossa e da bossa, da jovem guarda e da tropicália), sempre terá um ritmo e um estilo para acolher qualquer pobre-diabo que queira dar vazão a sua dor-de-cotovelo e demais sentimentos. Do mesmo modo, como não ver na evolução do sucessos das duplas sertanejas entre os anos sessenta e oitenta a consolidação do processo de urbanização pelo qual passou o país? Nada mais natural que, nos anos 90, Chitãozinho, Zezé e Leandro fossem consagrados pelo público egresso do campo e carente de identidade cultural nas cidades. Até mesmo o pagode, que considero o legítimo sucessor do samba, tem sua qualidade. É inegável que, entre tantos rótulos apenas burlescamente comerciais, encontram-se nomes de respeito. Talvez o mesmo não se dê com tanta freqüência com o axé-music. Mesmo que apelem a pretensas raízes tropicalistas/novos-baianistas, como comparar Luiz Caldas e "A Cor do Som" com Parangolé e "Liga da Justiça"? Uns são reconhecidos internacionalmente e tocaram no Festival de Jazz de Mountreux, outros... Porém, o terceiro milênio começa com notas plangentes: que dizer do sertanejo universitário e do funk carioca? Antes de responder, algumas considerações. O atual estágio da civilização em que vivemos é marcado pelo controle dos processos massificados. 



No mundo do entretenimento, isso significa que a finalidade da produção artística deve visar o mais amplo alcance de público consumidores para garantir o máximo de retorno à citada indústria. É o famoso ganho em escala: emplacar um grande sucesso, tocar na novela, invadir o subconsciente das pessoas e esperar pelo click, pelo download, pela compra do cd/dvd e ingressos. Se o produto oferecido exigir (neurônios) demais, restringe-se o público alvo, demanda-se investimentos direcionados (de menor amplitude, geralmente), o custo é maior, o retorno (pecuniário) para o artista também. Assim, no mercado massificado de cultura moderno, qualidades como sofisticação ou erudição custam caro e tem menos apelo para a massa do que a moda rasteira e descartável.
Há sempre a questão da finalidade da produção cultural. Imagino que um músico, quando se propõe a lançar um disco de axé ou um funk, não quer ser lembrado pela crítica tupiniquim como um legítimo sucessor de Carlos Gomes, Villa-Lobos, Guerra Peixe, Santoro, Guarnieri e Gnattali. Ele só quer ganhar dinheiro e curtir, assim como quem consome sua música não quer mais do que despejar algumas horas de diversão barata e "pegar" o máximo de pessoas possível. Afinal, o que é cultura? Cultura é a transmissão de conhecimentos, valores, informações entre as gerações. É a tradição (quem estuda direito sabe que "tradição" transferir a posse de mão em mão, é entregar algo a alguém) passada de pai para filho, que herda os princípios (a identidade, a idiossincrasia) e os fins (as aspirações, os ideais) a serem encarnados e vividos numa comunidade. Como bem disse Arnaldo Antunes, "bactéria no meio é cultura".




Assim, inevitável o questionamento: por que consumo determinada produção? Ela é cultura ou entretenimento? Enfim, e não menos importante: há fronteiras entre o erudito e o popular? O que distingue o músico erudito do popular é tão somente o estudo e o domínio de técnicas dos mais variados instrumentos musicais e conhecimentos sobre a música, seus elementos e sua história. Fora isso, a arte é a mesma, a capacidade de tocar as pessoas e de produzir obras-primas é a mesma. Vários autores de música clássica se inspiraram em composições populares. Quem nuca ouviu o maestro Martins tocando com a bateria da escola de samba Vai-Vai? Que dizer do chorinho? Grandes instrumentistas brasileiros vieram da música popular: Sivuca, Hermeto Pascoal, Borghettinho, Baden Powell, Tom Jobim... Assim, a produção artística moderna pode tanto produzir Arte e Cultura, como pode se destinar a produzir bens mercadológicos de fácil assimilação.




Então, que dizer do "Te dei o sol, te dei o mar", do "Ai, se eu te pego", do "fo(d)ge Mulher Maravilha" e do "créu créu"? É um sub-produto barato, acessível, rentável e trágico para a cultura brasileira. Representa a decomposição dos valores e da identidade brasileira. É um retrato da má hora, da péssima conjuntura que vivemos. Michel Teló representa a cultura brasileira? Sim: a mais cerce, a mais chanchada, a mais comercial. Não: a cultura brasileira é muito mais que isso.  







CREDITOS
Adriano Dal Molin


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